"Palavras são apenas sombras vagas do muito que queremos dizer."

 

Mas como outros seres, a história de minhas relações se enfunava de devaneios mais ardentes, concebidos sem esperança, onde florescia com tal exuberância minha vida de então, a eles dedicada, que não chegava a entender como, efetivados, se reduziam à rala fita, estreita e desbotada, de uma intimidade fria e espaçada, sem resquícios do que lhe constituíra o mistério, a febre, a doçura.

Proust

Tanta ternura escondida entre os dedos que seguram essa adaga fria, que confundem a que distância vai essa ânsia que se prende e se borda destinos, especulando mistérios numa rima e métrica que só Caetano entenderia.

Você que fala de introspecção e sensibilidade latente, me vê fazer referência a afabilidade e paradoxos. Dilacerante, eu pronunciaria bem mais tarde ao perceber os efeitos da tua ausência devastadora nas minhas memórias, na minha pele, na ponta dos meus dedos. Incapaz de afastar os devaneios de um vir à ser.

Vivo à revelia de uma consciência parca até mesmo das ilusões que inventamos por carícias em aplacar ansiedades, angústias e descaminhos, enquanto toma partido do meu querer e fá-lo crescer.

Há uma necessidade cultural de chamar para se divertir um filho que lê um livro no quarto. Será que aquilo também não é diversão? Escutei muito: ‘vá brincar lá fora, tem sol’. Dentro não pode ter sol?

Carpinejar

You will always be fond of me. I represent to you all the sins you never had the courage to commit.

Oscar Wilde

A arte da espera nunca me foi vista e absorvida com ratificação. Quando algo nos é suficientemente desejado e se faz por onde tornar-se concreto, a ideia de espera nada mais é que passos rumando ao objetivo. Mas o que dizer quando a menção é relacionamentos?

Como o fiz e involuntariamente ainda o faço tentando de encontrar… Percebendo de súbito o quão essa palavra me atormenta, já que sempre ouve aquela comoção nacional de García Márquez entre ódio e ternura. Quando sinto que a espera é outro embuste da esperança de fantasiar o estagnado.

Desfaço-me como ladrilhos desgastados pelas estações que sobrevivem aos trancos do tempo, mas que uma hora começam a ceder.

E por que haverias de querer minha alma na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas, obscenas,
porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo, prazer, lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando Aquele Outro.
E te repito: por que haverias de querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.

Hilda Hilst

By believing passionately in something that still does not exist, we create it. The nonexistent is whatever we have not sufficiently desired.

Franz Kafka

You will be the best judge of what this moment means to you. The rest is silence.

Carl Jung

O tempo, as palavras incontidas. Sobreposição.

Espera, eu preciso disso pra te escrever: tempo-espaço. Mas não, não te escrevo. Escrevo pra mim. Para guardar com as outras cartas que não enviei.

Caio estava certo quando se referia a dificuldade em falar e dizer coisas que não podem ser ditas. Quem escreve vive mesmo de reflexos, imagens, palavras. Do não-real, talvez. O não-palpável. Mas insisto, mesmo quando as palavras me são traiçoeiras e me endereço ao outro entregando o eu, perdendo o que não tenho quando resta apenas a possibilidade ilimitada da falta.

Escrevo enquanto te observo pelo estar-dentro-de-mim, quando num afago imagino conhecer-te em tudo que é silêncio e sombra por ainda almejar o abraço, o passo no corredor, o corpo na cama, o olhar atento por cima da xícara de café… Mas em meio a desorganização e a ruptura quando dá carinho à inocência que encanta a probidade e canta a fragilidade, meus cacos balançam-me nas divisões do querer.